quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

RICARDO COSTA

Ricardo Costa
Por Ricardo Costa
Diretor
 
13 de Janeiro de 2016
 
O adeus de Obama, os estilhaços do terrorismo e o petróleo em queda
 
Os Estados Unidos são a nação mais poderosa do mundo. Ponto final. É que não há a mínima comparação”. Não se deve começar artigos com uma citação, mas esta frase de Barack Obama no seu último discurso do Estado da União perante o Congresso norte- americano é demasiado boa para ficar no meio deste Expresso Curto. Boa e polémica, porque se pode ser lida como otimista, também tem laivos da arrogância.

O discurso de Obama teve muitas frases boas. O homem que preside aos EUA nos últimos sete anos e que deixa a Casa Branca dentro de um ano sempre foi um mestre na retórica e não perdeu isso com o tempo. Mas é muito criticado por isso, por os seus discursos estarem cheios de vento e palavras bonitas. O de ontem foi bastante sólido na parte económica, na capacidade que os americanos têm de reinventar a sua economia e de ultrapassar crises.

As principais críticas para a maioria republicana foram na área internacional, com Obama a dizer que os EUA não se podem virar para dentro num momento destes. Lamentou o rancor que dominou a política americana e apelou ao Congresso para autorizar o uso de forças militares contra o Daesh (e votar isso mesmo de forma clara), alertou para os perigos de qualquer discurso anti-muçulmano, desafiou os congressistas a levantarem o embargo a Cuba e prometeu, uma vez mais, o encerramento da prisão de Guantanamo, uma promessa que se arrasta sem fim.

O discurso de Obama decorreu enquanto dez marinheiros e dois pequenos navios americanos estavam sob custódia de militares iranianos. O incidente, mais simbólico do que perigoso, aconteceu quando os dois navios foram intercetados pela marinha iraniana por alegadamente estarem em águas territoriais do Irão. Teerão exige desculpas de Washington mas fez saber de imediato que os militares dos EUA estão bem e em segurança.

Muito mais real é o perigo terrorista do Daesh, que ontem fez o primeiro atentado contra turistas na Turquia. Um bombista suicida infiltrou-se num grupo de turistas à porta da Mesquita Azul, em Istambul, e fez-se explodir, matando dez pessoas, das quais nove alemães. A Turquia tem fortes receitas turísticas e a Alemanha é o país com maior peso nesse setor. O atentado teve esse objetivo óbvio.

Num braço de ferro paralelo, a Turquia prendeu esta madrugada três cidadãos russos por alegadamente estarem ligados ao Daesh e a este atentado. A troca de acusações entre Ancara e Moscovo não para desde que Putin resolveu interferir na guerra civil síria, apoiando Assad, e a força aérea turca abateu um caça russo que entrou por segundos no espaço aéreo turco.

Na Bélgica, a polícia (considerada a pior da Europa no combate ao terrorismo) conseguiu finalmente identificar três casas-refúgio que os terroristas responsáveis pelos atentados de Paris usaram para preparar as suas ações. Ao longo do dia há mais novidades sobre esta investigação que nunca encontrou o principal suspeito.

No meio disto tudo, o Petróleo continua em queda, agora abaixo dos 30 dólares, provocando sucessivas ondas de choque na economia mundial, com os países emergentes a caminho de recessões ou crescimentos anémicos.

Os efeitos são tais que ontem a BP anunciou ir despedir quatro mil funcionários e a brasileira Petrobras reviu todo o seu plano de investimentos e lucros, provocando uma queda brutal das suas ações na Bolsa de São Paulo.

Os sinais de que podemos estar perante uma terceira vaga da crise de 2008 são defendidos por muitos analistas. Depois da crise financeira veio a das dívidas públicas e do Euro e agora a das matérias-primas e países emergentes. Deixo as explicações e respostas para os meus colegas que dominam a poda económica, mas quem leia a imprensa de referência internacional já percebeu que estamos perante um caso sério (e ainda estamos em janeiro…). O melhor é irmos a outras notícias, sobretudo da pátria, onde não há petróleo no Beato nem em lado nenhum, pelo menos para já.

OUTRAS NOTÍCIAS
A decisão de Nuno Melo sobre a liderança do CDS deve ser anunciada hoje. O Dário de Notícias escreve que o eurodeputado avança mesmo, num momento em que é, a par de Assunção Cristas, o nome mais forte para suceder a Paulo Portas.

A aventura do regresso das 35 horas semanais para a Função Pública aterra hoje no Parlamento, com uma chuva de diplomas de todos os partidos à esquerda, PS incluído. Em princípio tudo será aprovado, mas não se pense que o tema é pacífico entre as forças políticas que apresentam a reversão da lei que permitiu as 40 horas de trabalho.

PCP, Bloco e Verdes querem que a lei tenha efeitos imediatos e Jerónimo já explicou que nãos e trata de lutar por nenhum novo direito, mas apenas pela reposição de um direito conquistado. Mas o PS está com sérios problemas com o impacto orçamental que a medida pode ter no caso dos vários serviços não terem tempo para se reorganizar. Tudo indica que a discussão será feita no debate na especialidade, onde o partido do governo e as forças que o apoiam terão de se entender… ou não.

Nem por acaso, Pedro Passos Coelho deu uma importante entrevista à Rádio Renascença, onde criticou o governo por estar a reverter tudo o que fez o anterior. ”Se a missão deste governo é desfazer o que o anterior fez, essa missão esgota-se em pouco tempo”, afirmou, aproveitando para criticar duramente as decisões na área da educação e, acima de tudo, mostrar preocupação com a quebra de confiança dos investidores estrangeiros em Portugal.

A campanha das Presidenciais prossegue a todo o gás, mas sob alguma indiferença e o medo de uma abstenção que só é normal quando um Presidente tenta a reeleição. Ainda faltam dez dias de campanha e várias sondagens. A próxima é já amanhã no Expresso e na SIC.

No Expresso seguimos a campanha na estrada no Expresso Diário e no Online, gravamos vídeos com comentários todas as manhãs e estamos a recordar os momentos decisivos das Presidências da República desde Spínola até Jorge Sampaio.

O Diário Económico anuncia que a venda do Novo Banco é retomada para a semana, num processo agora liderado pelo ex-turbo Secretário de Estado Sérgio Monteiro. O calendário indicativo vai manter-se na segunda tentativa de vender o banco.

Já o Jornal de Negócios explica que a lei europeia protege a polémica decisão do Banco de Portugal de ter discriminado credores do BES, uma decisão que está a provocar enorme polémica com investidores internacionais.

O Banif também está nas primeiras páginas dos jornais económicos e também do Diário de Notícias, que diz em manchete que as filhas de Horácio Roque admitem processar o Estado. Teria Roque, a filha mais velha do falecido banqueiro madeirense, reclama perdas de 555 milhões.

Adeus SG Filtro e SG Gigante. O jornal i afirma que a Tabaqueira vai deixar de produzir estas duas marcas que nos acompanham há décadas.

Nos desportivos, segue-se a para e passo o drama do sportinguista Téo Guttierez, que nunca mais regressava a Lisboa. Parece que dizia que não conseguia voar por não se sentir bem, mas o Record traz na capa uma foto do jogador nas areias de Barranquilla (terra de Shakira e de um famoso Carnaval).

No Porto, a Bola garante que Lopetegui não desiste de receber os prémios referentes aos jogos futuros, numa indemnização que pode chegar aos € 4 milhões. O Jogo informa que Sérgio Conceição, atual treinador do Vitória de Guimarães, está a ganhar força para se mudar para o F.C. Porto.

Rupert Murdoch vai casar-se aos 84 anos com Jery Hall, de 59 anos. O magnata australiano, que tem um império mediático nos EUA e Inglaterra, e a famosa modelo, ex-mulher de Mick Jagger, anunciaram a boda num curto e singelo anúncio no Times (propriedade de Murdoch), como se fazia nos tempos de Downton Abbey.


FRASES
O que é que tem de Omeprazol? Hum... 56 comprimidos… se for eleito já dá para Belém”. Marcelo Rebelo de Sousa a comprar medicamentos numa farmácia de Portalegre

Eu já disse várias vezes que o meu adversário principal é Marcelo Rebelo de Sousa”. Maria de Belém em visita a um Hospital no Porto

"Eu acho que o professor Sampaio da Nóvoa já é general". Ramalho Eanes na Campanha de Sampaio da Nóvoa


O QUE EU ANDO A LER
É pena que Paulo Portas esteja de partida da política, porque o livro que eu ando da reler é uma imensa fonte de metáforas e ideias para discursos carregados de imagens. O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luís Borges, tem mais de quarenta anos e as personagens que o habitam muitos milhares.

Li este magnífico livro, uma coleção inimitável de seres recolhidos nas infindáveis leituras de Borges, há uns vinte anos numa edição espanhola a que perdi o rasto. Encontrei-o agora numa belíssima edição portuguesa da Quetzal, numa passagem pela Livraria Fonte das Letras, que ganhou merecida fama em Montemor-o-Novo e que, entretanto, se mudou para uma das mais movimentadas ruas de Évora.

Borges é um prodígio de cultura e de síntese, de erudição e simplicidade, conta numa página o que outros fazem em dez, poupa no adjetivo e esbanja na fantasia. É inimitável e este livro só podia ter saído da sua cabeça. É uma delícia sobre a imaginação humana, sobre os seres imaginários que o homem foi inventando ao longo da história para preencher os seus sonhos, medos, temores, ambições e inesgotável imaginação.

Como já disse, este livro é uma fonte inesgotável de metáforas, imagens e analogias. Se a gerigonça pegou de estaca na política portuguesa, imaginemos o que faria este livro nas mãos de deputados com razoáveis dotes retóricos. Uns, poucos, exemplos:

a) O Unicórnio Chinês: “(…) tem corpo de cervo, cauda de boi e cascos de cavalo; o corno que lhe cresce na testa é feito de carne; o pelo do lombo é de cinco cores misturadas; a do ventre é parda ou amarela. (…) O seu aparecimento é presságio do nascimento de um virtuoso. É de mau augúrio feri-lo ou encontrarem o seu cadáver. Mil anos é o fim natural da sua vida”.

b) Os Sátiros: “(…) Da cintura para baixo eram cabras; o corpo, os braços e o rosto eram humanos e peludos. Tinham corninhos na testa, orelhas pontiagudas e o nariz encurvado. Eram lascivos e bêbedos. (…) Os camponeses adoravam-nos e ofereciam-lhes as primícias das colheitas”.

c) O Mirmoleão: “O pai tem forma de leão, a mãe de formiga; o pai alimenta-se de carne e a mãe de ervas. E estes geram o leão-formiga, que é uma mistura dos dois e que é parecido com os dois, porque a parte da frente é de leão, a de trás de formiga. Assim formado, não pode comer carne, como o pai, nem ervas, como a mãe; por conseguinte, morre.

A lista é imensa e, como se vê, coloca a “geringonça” a um canto. Se este livro fosse distribuído (e lido) no Parlamento, teríamos discursos épicos:
- Vossa excelência pensa que é um Unicórnio Chinês, mas, no fundo, terá o destino de um Mirmoleão!

- Vindo de alguém que se julga um Sátiro, mas não passa de um Lémure, isso é um elogio…

- Você é um reles Cervo Celestial!

- Cale-se, Crocota!


No Expresso Online não há seres imaginários, mas há coisas inimagináveis, porque o mundo não pára de nos surpreender. É só ir consultando o que vamos escrevendo e atualizando ao longo do dia. Ao fim da tarde, temos mais uma edição do Expresso Diário, com notícias e opinião em primeira mão e toda a atualidade organizada. E amanhã, bem cedo, cá estará mais um Expresso Curto.

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