quarta-feira, 30 de abril de 2014

PAGÁMOS AS OBRAS QUE USAIS.

(In)segurança social e a “peste grisalha”…

   
Foto: www.laridosos.net
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Um beijo entre idosos
Foto: www.laridosos.net
É inacreditável a falta de apoio dada à nossa terceira idade, a quem já alguns apelidaram de uma geração “peste grisalha”. O pensamento de alguns dos nossos responsáveis políticos pisa o perigoso destino que se está a dar a esta geração. Serão uns inúteis pensarão uns ou descartáveis pensarão outros, esquecendo-se que foram estes os responsáveis por aquilo que hoje somos e que ajudaram a edificar este grande país, bem como outros que foram empurrados e quase obrigados a emigrar. A esta geração de idosos deveriam estar-lhe imensamente gratos. Devemos-lhes muito. Pelo menos, eu devo!
Mas “peste” porquê? Também já sou Grisalho, mas a outra adjectivação levou-me a pegar no dicionário para confirmação. Lá estava, como sinónimo, poderiam então apurar da sua restante utilização. É quanto a mim uma palavra inapropriada para adjectivar essa geração. Podemos de alguma forma dizer que a nossa terceira idade é alguma “pandemia” grisalha? Uma “doença” grisalha? Uma “infecção” grisalha? Nada disso. Mas que palavra mais inapropriada para nos dirigirmos aos nossos idosos, a quem deveríamos de todas as formas admirar e respeitar.
Já por algumas vezes em conversa de amigos ou outras referi que para além das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), que acautelam e sinalizam menores em risco, também os idosos deveriam ver criada uma comissão que acautelasse e protegesse aqueles que se encontram em risco, até porque, com o conhecido decréscimo da natalidade, a sociedade tende a tornar-se, a passos largos, cada vez mais idosa. Só isso justificaria a criação dessa comissão.
Resta louvar a atitude da GNR, que anualmente, elabora um estudo denominado “Censos Sénior” que, de alguma forma, apura os idosos que vivem em situação de isolamento e consequente em risco. Infelizmente, os militares desta força de segurança, chegam, ao que parece, a ser as únicas visitas que alguns dos idosos têm. Por uma lado, ainda bem que assim é e que com alguma regularidade os visitam. No último senso, a GNR apurou um aumento de idosos nessa situação. O distrito da Guarda, tinha em 2013, 1883 idosos em situação de isolamento e o meu concelho de Celorico da Beira era o cabeça de lista distrital com 357 casos sinalizados.
Todos assistimos às tristes e cruéis notícias de idosos que acabam por falecer em casa sem que ninguém se aperceba de tal. Perante tais notícias, vem-me logo à memória outra vez a questão da “peste”, que a dada altura da nossa história quase nos levou metade de toda a população. Que estamos a fazer aos nossos idosos? Aos mais frágeis? Os que não têm os apoios que deveriam ter? Aos que não têm suporte familiar? Aos que lhes estão a retirar parte da sua parca reforma que ainda recebem? Queremos que alguma “peste” os atinja? Os afecte? Não. Se os verdadeiros responsáveis não lhes dão a devida atenção, terá que ser a sociedade, de qualquer forma, a fazê-lo. Temos hoje enormes razões para acreditar numa enorme (in)segurança social a que alguns destes idosos infelizmente estão expostos.
E como estará a saúde destes idosos? O seu acompanhamento a consultas? Os seus tratamentos médicos? As deslocações aos hospitais centrais? Os transportes? Todos nós ouvimos dizer que a saúde deve estar em primeiro lugar, mas muito francamente parece-me que ela está classificada num desonroso último lugar, designadamente no que se refere a esta “geração grisalha”.
Estes idosos não merecem de modo algum que este Estado lhes vire as costas. Pelo contrário, mais que nunca lhes deveria prestar todo o apoio possível, porque é a eles que tudo devemos.
Há relatos de idosos, designadamente doentes que desistem de tratamentos. Da realização de exames médicos. De consultas. Isto porque lhes falta, isso mesmo, o tal apoio social que não existe! Falta-lhes dinheiro, condições de transporte para assim poderem levar uma merecida vida de reformados que tanto desejaram e que tanto merecem. Depois de terem trabalhado toda a vida, a maior parte deles sem qualquer dia de férias vêem-se agora, muitos deles, obrigados a desistir desses exames e tratamentos por falta de apoio social, confrontados com o encarecimento dos transportes e da medicação.
Esta segurança social transformou-se ultimamente numa enorme insegurança social e pergunto-me como é que isto é possível acontecer num país que se diz sério e desenvolvido? Afinal a saúde não está em primeiro lugar? Nem todos os idosos têm filhos ou outros familiares ou condições económicas, que, na retaguarda, lhes possam garantir aquilo a que têm direito a receber. Ficam dessa maneira sujeitos a esta “peste” da falta de apoios que deveriam vir e nunca chegam.
Neste país, territorialmente pequeno e tão fácil de governar, onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, onde é mostrada tanta força com os fracos e tanta fraqueza com os fortes, era devido uma especial revisão de tudo isto e dar, a esta geração, aquilo que merece. Se um qualquer idoso doente e reformado com misera reforma de 200 ou 300 euros mensais, sem acesso a transporte e tiver que se deslocar, por mês duas ou três vezes a hospitais centrais para se tratar e se com essas deslocações gastar a sua reforma, ele vai comer do quê e a viver do quê?
Perante tais situações, é minha opinião, que esta “geração” grisalha vive numa enorme e vergonhosa (in)segurança social…
Autor: António Carlos Ferreira
 

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