segunda-feira, 26 de agosto de 2019

AMBIENTALISTA

O AMBIENTALISTA SIMPLÓRIO Há um certo tipo de ambientalista que quer sol na eira e chuva no nabal. Que não aceita menos do que um mundo perfeito. Um mundo com azeite barato, mas sem olivais intensivos; com carros elétricos, mas sem prospeção de lítio; com energias renováveis, mas sem barragens nem eólicas; com floresta, desde que seja a do Capuchinho Vermelho. Um mundo que não existe. O ambientalista simplório quer acabar com os combustíveis fósseis. Quer energia limpa, sem emissões de gases com efeito de estufa. Mas não quer barragens, porque as barragens destroem ecossistemas. Não quer eólicas, porque as "ventoinhas" estragam paisagens e perturbam os animais. Não quer energia nuclear, porque produz lixo radioativo. O ambientalista simplório quer florestas, porque precisamos de árvores para absorver dióxido de carbono da atmosfera. Mas quer escolher as árvores. Não quer eucaliptos, não quer floresta de produção. Quer a floresta do Capuchinho Vermelho, porque sempre viveu na cidade e julga que as florestas são assim. Quer dizer a cada proprietário o que pode plantar e ainda obrigá-lo a tratar do terreno, num serviço gratuito, abnegado, para benefício da "sociedade". O ambientalista simplório grita "oiçam os cientistas", quando os cientistas lhe dizem o que ele quer ouvir. "Oiçam os cientistas: estamos a destruir o planeta com as alterações climáticas." Mas, quando os mesmos cientistas dizem que "os transgénicos não fazem mal nenhum e podem ser uma mais-valia para o ambiente e para a humanidade", o ambientalista simplório berra: "Os cientistas estão a soldo das multinacionais.” O ambientalista simplório quer agricultura biológica, porque não gosta de "químicos". Mas esquece-se de que tudo são químicos, do oxigénio que respira ao sulfato de cobre usado, tal como centenas de outros produtos "naturais", na agricultura biológica. Esquece-se de que a agricultura biológica precisa de mais espaço, valioso espaço, para produzir a mesma quantidade que a agricultura convencional, e que esse espaço terá de ser ganho à custa da desflorestação. O ambientalista simplório quer que toda a gente se torne vegetariana, ou vegan, e acabar com a produção animal. Mas ignora que sem produção animal todo o fertilizante usado para cultivar os seus vegetais terá de ser artificial, e "aí, Deus nos livre dos químicos". O ambientalista simplório quer acabar com os jardins zoológicos, porque, não, os animais não podem estar em cativeiro, fechados a vida toda num espaço limitado. Mas abre uma exceção para gatos e cães (e coelhos, vá), menos animais do que os outros. Esses podem viver quase desde que nascem até ao dia
em que morrem trancados num apartamento de 50 metros quadrados, que é para o bem deles. O ambientalista simplório é contra o desperdício alimentar. Mas não quer conservantes na comida nem delícias do mar nem nada que seja feito com restos de comida. O ambientalista simplório só cozinha com azeite, essa oitava maravilha para a saúde. Mas vocifera contra os olivais intensivos no Alentejo. Produzir azeite em grande quantidade é a única forma de lhe baixar o preço e torná-lo acessível a todos? Os pobres que comam bolos. O ambientalista simplório chora a morte de cada rinoceronte e tigre. Mas defende com unhas e dentes a medicina tradicional chinesa que está por trás da perseguição a rinocerontes e tigres, para fazer pós milagrosos com os seus cornos e ossos - porque as medicinas alternativas são naturais e, lá está, o que é natural é bom (desde que não seja sal, cogumelos venenosos, arsénio, amianto, mercúrio, antraz, urtigas, malária, raios ultravioletas, etc. etc. etc.). O ambientalista simplório faz campanhas para que se coma "fruta feia", julgando que os agricultores mandam para o lixo tomates e maçãs que não interessam aos supermercados. Mas ignora que esses tomates e essas maçãs disformes se transformam em ketchup, sumos e outros produtos, que obviamente não são feitos com vegetais e fruta topo de gama. O ambientalista simplório quer comer peixe. Mas não pode ser capturado no mar, porque a pesca não é sustentável, e não pode ser de aquacultura, porque tem antibióticos, e garantidamente não pode ser geneticamente modificado, porque viu um desconhecido no YouTube que dizia não sabe o quê, já não se lembra bem. O ambientalista simplório quer que haja mais carros elétricos nas estradas. Mas é contra a prospeção de lítio, essa insustentável fonte de poluição do ar, dos solos, das águas, e escreve-o nas redes sociais, teclando furiosamente no seu telemóvel com bateria de lítio". Luís Ribeiro Jornalista

domingo, 25 de agosto de 2019

O BODE II

AS ELITES...

Política

As “elites” (risos) a que chamamos elites /premiu

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Veja-se os Costas, os Marcelos, os Césares, os Rios, as Catarinas, os Jerónimos, os Louçãs, os Ferros, os Salgados, os Mendes, os Pachecos. É possível conter o riso face a semelhante ramalhete?
Não é fácil decidir se a culpa é do país, do regime ou dos bandos, no plural ou no singular, que tomaram conta disto na maior parte de quase meio século. A verdade é que Portugal não é respeitável. E não é respeitável na exacta medida em que, com a subserviência interessada dos empresários, a conivência pasmada dos “media” e o fascínio pelo Estado de uma curiosa “sociedade civil”, certas forças e personagens políticas beneficiam de uma impunidade que, por definição, abre as portas à prepotência, à inépcia e à corrupção.

Por cá, os governantes, principais e acessórios, não são avaliados em função do seu desempenho, mas em função da ideologia que o precede. Se calha de serem situados à “direita”, em geral por outrem e nunca pelos próprios, a avaliação é imediatamente negativa, excepto nos casos e nos momentos, não demasiado raros, em que a “direita” presta vassalagem ao adversário. Se, como é costume, são de esquerda, sucedem-se as vénias antecipadas a um “trabalho” (digamos) que invariavelmente se distinguirá pela brutal falta de juízo, rigor, decência e vergonha. E sobretudo escrutínio. À imagem das figuras dos “reality shows”, conhecidas apenas por serem conhecidas, inúmeras figuras da política caseira são, salvo seja, reverenciáveis apenas porque as consideram assim.Para dar um mero exemplo e não sair, cruz credo, do Partido Socialista, a história do PS e dos líderes do PS é uma sucessão de prodígios cuja única fundamentação consiste no facto de se estabelecer na “opinião pública”, sem direito a grande refutação, o gabarito evidente e prévio de tais criaturas. Se esmiuçarmos as criaturas, porém, percebe-se que os motivos de tamanhos louvores são um mistério fascinante, ou uma revelação deprimente.Não importa, nunca importou que Mário Soares passasse as últimas décadas de vida a aplaudir tiranias. Não importa, nunca importou que Vítor Constâncio fosse uma insignificância sem escrúpulos. Não importa, nunca importou que Jorge Sampaio fosse uma relíquia do marxismo ortodoxo. Não importa, nunca importou 
que António Guterres fosse um monumento ao vácuo. Não importa, nunca importou que Ferro Rodrigues fosse Ferro Rodrigues. Não importa, nunca importou que José Sócrates fosse um egomaníaco responsável pela institucionalização da trafulhice. Não importa, nunca importou que António Costa fosse um profissional da pequena intriga e um amador da língua. Para o discurso dominante, foram, respectivamente, o pai da democracia, um portento da economia, um homem bom, um génio diplomático, um Ferro Rodrigues, um salvador, um supremo estratega.






Alguns viram-se legitimados pelo voto, outros nem por isso. Em qualquer dos casos, a legitimidade de todos para mandar dependeu sempre menos de eleições do que de convenções: convencionou-se que os socialistas acima, junto com inúmeros socialistas diluídos ou concentrados, oficiais ou oficiosos, e de distintos graus de notoriedade e cumplicidade, merecem tomar conta de nós. Esta vasta teia constitui, garantem-nos, uma “elite”, uma “elite” que só o é na medida em que nos garantem sê-lo. No contexto, a mera palavra arrepia. E as críticas à “elite” que a admitem enquanto tal arrepiam duplamente.
Ainda que crítico, o reconhecimento da “elite” é uma forma de legitimação. Aquilo de que Portugal padece é da submissão a um escassamente recomendável conjunto de indivíduos, arregimentados em bandos e movidos por interesses comuns, não por acaso alheios aos interesses do cidadão comum. O pormenor de o cidadão comum ignorar a contradição e a submissão ser parcialmente voluntária não modifica a natureza do arranjo: o arranjo é nocivo, e para funcionar implica o lendário respeitinho, o “cimento social” que teimamos em não largar. Dito de maneira diferente, a esquerda, já de si propensa a consagrar-se através de dogmas, mitos e beatificações, ergue estátuas, metafóricas e ocasionalmente literais, por Portugal em peso – o que resta ao resto fazer?
Resta ao resto rir. Não há gesto tão repulsivo quanto o de rir com as “elites”, nem tão digno quanto rirmo-nos delas. Não que rir seja o melhor remédio, o pior remédio ou sequer um placebo sofrível. Acontece que o riso é um reflexo inevitável perante determinado tipo de situações grotescas de que esta bonita choldra é praticamente o padrão. Olhe-se em volta, sem olhos de quem integra ou sonha integrar a choldra. Veja-se os Costas, os Marcelos, os Césares, os Rios, as Catarinas, os Jerónimos, os Louçãs, os Ferros, os Salgados, os Mendes, os Pachecos, os Santos, os Silvas e toda a sorte de bonequinhos que, mais por apatia nossa do que por engenho deles, fazem da paróquia o seu quintal. É possível conter o riso face a semelhante ramalhete?
Às vezes, sim. Às vezes, o ramalhete e as descaradas rábulas do ramalhete inspiram uma coisa entre o embaraço e a depressão. Com frequência, deviam inspirar galhofa, galhofa pura, cristalina, imaculada. O que influencia as variações de inspiração? O pormenor de uma pessoa manter uma réstia de optimismo ou dar Portugal por perdido. Na presunção de que não há hipótese, uma pessoa liberta-se do peso da esperança e entrega-se à gargalhada. É que se isto não tem salvação, isto tem graça. E o som do escárnio é a perfeita banda-sonora do fim, que talvez fosse provável e que será, por obra das “elites” (risos), inevitável.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.
Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.
Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?
Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.
Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas.

O BODE

sábado, 24 de agosto de 2019

UNIÃO EUROPEIA

Todos a denunciar e a exigir HONESTIDADE e AUSTERIDADE!
Já reparou? Os políticos europeus estão a lutar como loucos para entrar na administração da UE! E porquê?
Leia  o que segue, pense bem e converse com os amigos. Envie isto para os europeus que conheça! Simplesmente, escandaloso.
Foi aprovada a
aposentadoria aos 50 anos com 9.000 €uros por mês
para os funcionários da EU! Este ano, 340 agentes partem para a reforma antecipada aos 50 anos com uma pensão de 9.000 euros por mês.
Sim, leu correctamente!
Para facilitar a integração de novos funcionários dos novos Estados-Membros da UE (Polónia, Malta, países da Europa Oriental...), os funcionários dos países membros antigos (Bélgica, França, Alemanha...) receberão da Europa uma prenda de ouro para se aposentarem.
Porquê e quem paga isto? Você e eu estamos a trabalhar ou trabalhámos para uma pensão de miséria, e aqueles que votam as leis se atribuem presentes de ouro.
A diferença tornou-se muito grande entre o povo e os "Deuses do Olimpo!"
Devemos reagir por todos os meios começando por divulgar  esta mensagem para todos os europeus. É uma verdadeira Mafia a destes Altos Funcionários da União Europeia...
Os tecnocratas europeus usufruem de verdadeiras reformas de nababos... Mesmo os deputados nacionais que, no entanto, beneficiam do "Rolls" dos regimes especiais, não recebem um terço daquilo que eles embolsam.
Para eles, é o jackpot. No cargo desde meados dos anos 1990, têm a certeza de validar uma carreira completa e, portanto, de obter o máximo: 70% do último salário. É difícil de acreditar... Não só as suas pensões atingem os limites, mas basta-lhes apenas 15 anos e meio para validar uma carreira completa, enquanto para você, como para mim, é preciso matar-se com trabalho durante 40 anos, e em breve 41 anos.

Confrontados com o colapso dos nossos sistemas de pensões, os tecnocratas de Bruxelas recomendam o alongamento das carreiras: 37,5 anos, 40 anos, 41 anos (em 2012), 42 anos  (em 2020), etc. Mas para eles, não há problema, a taxa plena é 15,5 anos... De quem estamos falando?

Originalmente, estas reformas de nababos eram reservadas para os membros da Comissão Europeia e, ao longo dos anos, têm também sido concedida a outros funcionários. Agora eles já são um exército inteiro a beneficiar delas: juízes, magistrados, secretários, supervisores, mediadores, etc.

Mas o pior ainda, neste caso, é que eles nem sequer descontam para a sua grande reforma. Nem um cêntimo de euro, tudo é à custa do contribuinte... Nós, contribuímos toda a nossa vida e, ao menor atraso no pagamento, é a sanção: avisos, multas, etc. Sem a mínima piedade. Eles, isentaram-se totalmente disso. Parece que se está a delirar!
O objectivo é alertar todos os cidadãos dos Estados-Membros da União Europeia. Juntos, podemos criar uma verdadeira onda de pressão.

domingo, 18 de agosto de 2019

FILHOS DA NAÇÃO

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Saúde do III Mundo


Opinião

A charlatanice glorificada na Lei de Bases da Saúde

Uma vez mais o poder político encontra atalhos para a falta de provas das terapias alternativas.
As terapias alternativas deverão ficar reforçadas na nova Lei de Bases da Saúde, aprovada no final de Julho, caso esta seja confirmada pelo Presidente da República, em sentido contrário com os recuos que têm vindo a acontecer noutros países. O Governo francês anunciou recentemente que irá deixar de comparticipar remédios homeopáticos por causa da falta de provas da sua eficácia. O sistema nacional de saúde britânico já tinha decidido o mesmo pelas mesmas razões. O Governo espanhol avançou este ano com uma campanha de informação pública contra as pseudociências na saúde, enfatizando a falta de provas das terapias alternativas (o hashtag da campanha é #coNprueba). Nós insistimos em andar em contramão. Na versão aprovada pelos deputados, pode ler-se na Base 26:
1 – “O exercício das terapêuticas não convencionais é regulado por lei, efectuado de modo integrado com as terapêuticas convencionais e de forma a garantir a protecção da saúde das pessoas e das comunidades, a qualidade assistencial e tendo por base a melhor evidência científic
2 – “É competência do ministério responsável pela área da saúde e credenciação, tutela e fiscalização da prática das terapêuticas não convencionais, de acordo com a definição aprovada pela Organização Mundial da Saúde”.

Por um lado, diz-se que as terapias alternativas devem ter “por base a melhor evidência científica” — caso em que não sobraria nada ou praticamente nada delas. Para logo a seguir dizer que, afinal, o que conta são os documentos políticos da Organização Mundial da Saúde (OMS). São duas coisas muito diferentes — a OMS é (também) uma organização política, que tal como a Assembleia da República portuguesa é permeável ao lobby. Se as terapias alternativas tivessem “por base a melhor evidência científica” não precisariam de leis especiais nem desta Base 26. Os seus tratamentos seriam aprovados, como quaisquer outros, em face das provas. Mas a nenhum tratamento de nenhuma terapia alternativa é exigido qualquer prova de eficácia para a sua introdução no mercado.
Os remédios homeopáticos, por exemplo, são aprovados pelo Infarmed através de um regime simplificado (artigo 137 do Decreto-Lei 176/2006), em que apenas têm de provar que são inócuos — o que não é difícil, pois são apenas água e açúcar e nenhum outro efeito têm a não ser o placebo. Se os terapeutas alternativos acreditam realmente que as suas práticas têm fundamento científico, então que aceitem sujeitar os seus tratamentos ao mesmo crivo exigido aos medicamentos normais, abdicando de todos os regimes especiais.
Esta não é a primeira vez que o poder político encontra atalhos para a falta de provas das terapias alternativas. Uma avalanche de legislação absurda aprovada desde 2013 obriga a Administração Central do Sistema de Saúde a emitir cédulas profissionais para praticantes de medicinas que não funcionam (o equivalente à Direcção-Geral de Veterinária creditar amestradores de dragões) e define mesmo conteúdos programáticos para licenciaturas em banha da cobra (uma fraude com o aval do Estado que induz alunos a fazerem essas licenciaturas em terapias alternativas).

A aspiração agora no horizonte é naturalmente a introdução destas práticas no Serviço Nacional de Saúde, pondo os contribuintes a pagar tratamentos que não funcionam e que colocam em risco a saúde e a vida dos doentes. Por exemplo, no caso do cancro, um estudo realizado com quase dois milhões de pacientes, publicado na revista científica JAMA Oncology no ano passado, revelou que os doentes oncológicos que recorrem às terapias alternativas em complemento aos tratamentos convencionais têm uma mortalidade duas vezes superior aos que recorrem apenas aos tratamentos convencionais. Isto acontece, entre outras coisas, porque atrasam o início dos tratamentos que realmente lhes podiam salvar a vida.
A Lei de Bases da Saúde deixa implícito que as terapias alternativas têm fundamento científico, o que não é verdade. O Presidente da República vetou recentemente o estatuto de interesse público da Escola Superior de Terapêuticas Não Convencionais por considerar que não existe “validade cientificamente comprovada”. As mesmíssimas razões se aplicam neste caso e justificam que o Presidente da República devolva esta Lei de Bases ao Parlamento, para que possa ser melhorada.
Bioquímico e divulgador de ciência

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

UMA SENSAÇÃO ESTRANHA

Uma sensação estranha | Opinião | PÚBLICO 27/01/2019, 23*53 https://www.publico.pt/2019/01/27/opiniao/opiniao/sensacao-estranha-1859484 Page 1 of 7 27 de Janeiro de 2019, 7022 António Barreto OPINIÃO Uma sensação estranha Da Justiça, vem uma ideia de favoritismo e parcialidade. É inegável a imagem de vulnerabilidade da Justiça, que se traduz em fraqueza dos cidadãos. É indelével a sensação de que algo na Justiça não está a correr bem e de que se preparam grandes acções. Ou reviravoltas. Não se esconde a ideia de que a Justiça pode ser fonte de surpresas a breve prazo. É uma questão inescapável: estará em curso um movimento de revisão dos grandes processos pendentes? É uma hipótese com fundamento: será que nos devemos preparar para más notícias no domínio dos casos em que são visados os poderosos? Nos últimos meses, houve mudanças muito importantes no universo da Justiça, designadamente nos tribunais superiores e em alguns departamentos vocacionados para estes processos. Tem havido substituições, algumas aparentemente de rotina, na Procuradoria-Geral da República, no Conselho Superior de Magistratura, no Conselho Superior de Magistratura do Ministério Público e no Supremo Tribunal de Justiça. O que também se verifica entre os dirigentes das polícias de investigação. Uma sensação estranha | Opinião | PÚBLICO 27/01/2019, 23*53 https://www.publico.pt/2019/01/27/opiniao/opiniao/sensacao-estranha-1859484 Page 2 of 7 Coincidindo com estas mudanças, há sinais inquietantes: o número de arguidos diminui; o número de acusações decresce; há arguidos que deixam de o ser; há penas que são reduzidas; por alegada falta de consistência de provas indícios, caem acusações. Devagar, como quem não quer a coisa, algo se passa. Ora, estão em curso processos de extrema gravidade e de excepcional importância. Está em causa a honra de dezenas de figuras notáveis. Dezenas de políticos, incluindo primeiro-ministro, ministros, secretários de Estado, deputados e autarcas de vários partidos estão profundamente envolvidos. Muitos dirigentes económicos e financeiros, talvez alguns dos mais poderosos banqueiros portugueses, além de bancários, empresários e gestores também se encontram visados. Contam-se ainda dirigentes de algumas das mais importantes empresas portuguesas públicas e privadas, sendo que umas tantas foram objecto de destruição deliberada e roubo. A este elenco, acrescentam-se militares e polícias de todas as patentes, assim como dirigentes dos mais poderosos clubes de futebol. Nunca nada de parecido se viu na história. Movimentos quase imperceptíveis, aparentemente de pouca importância, alteram os comportamentos dos Conselhos Superiores, Uma sensação estranha | Opinião | PÚBLICO 27/01/2019, 23*53 https://www.publico.pt/2019/01/27/opiniao/opiniao/sensacao-estranha-1859484 Page 3 of 7 do Ministério Público, dos Tribunais, das associações de magistrados e outros profissionais da Justiça. Uma nomeação aqui e outra ali. Uma substituição sem motivo evidente e outra em resultado de ciclos e de escalas. Processos que se atrasam sem razão, outros que aceleram de modo imprevisível. Há uma espécie de erosão nas acusações, nas suspeitas e nas pronúncias. No universo da corrupção, do peculato, do favoritismo, do branqueamento de capitais, da prevaricação, do segredo de justiça, da fuga de informação, da legislação feita por encomenda e dos contratos entre o público e o privado, os processos são objecto de atraso, de esquecimento, de dificuldades imprevistas, de investigação alegadamente mal feita, de acusação não fundamentada, de gravações desaparecidas e de escutas mandadas destruir. Que se passa? Má investigação? Má acusação? Má instrução? Vingança pessoal? Envolvimento partidário? Mudança de sentido político no seio do Ministério Público? Tentativa de recuperação por parte dos principais arguidos da política, da banca e dos negócios? Que se passou na destruição de provas e de escutas? A política de “bica aberta” relativamente às provas e às escutas tem explicação? A publicação, a ocultação e a destruição de escutas continuam a ser suspeitas. Uma sensação estranha | Opinião | PÚBLICO 27/01/2019, 23*53 https://www.publico.pt/2019/01/27/opiniao/opiniao/sensacao-estranha-1859484 Page 4 of 7 A recente polémica a propósito da tentativa frustrada de alteração da composição do Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público teve o efeito de revelar o jogo de tensões e pressões no interior e à volta dos grandes corpos de profissionais da Justiça. Quase coincidindo, no tempo, com esta discussão, a substituição da procuradora-geral da República, a mudança do juiz de instrução do caso da Operação Marquês e alegadas anomalias na distribuição de processos confirmaram a existência de sérios confrontos institucionais. Nos processos dos políticos e do dinheiro, a justiça tem dificuldade em resolver. Há quem atrase e deixe prescrever. Ou oculte evidência e provas. Da Justiça, vem uma ideia de favoritismo e parcialidade. É inegável a imagem de vulnerabilidade da Justiça, que se traduz em fraqueza dos cidadãos. Ora, o que acontece é simultâneo com alguns progressos. A Justiça melhora os seus meios, progride na sua administração quotidiana e na profissionalização, mas parece estancar diante das rivalidades entre os seus corpos mais importantes, magistrados, procuradores, oficiais, advogados e polícias. Uma sensação estranha | Opinião | PÚBLICO 27/01/2019, 23*53 https://www.publico.pt/2019/01/27/opiniao/opiniao/sensacao-estranha-1859484 Page 5 of 7 A Justiça moderniza-se, aumenta a eficácia, diminui as pendências, aumenta a produtividade e recorre a especialistas, mas parece estancar diante dos processos que envolvem governantes, políticos, poderosos das finanças e das empresas e altos funcionários da Administração Pública. A Justiça afirma gradualmente a sua independência, mas constrói uma autogestão orgulhosa que intimida e paralisa o legislador e que a afasta do povo soberano e das fontes de legitimidade democrática. A Justiça reclama a sua isenção, mas mostra-se vulnerável às pressões e lutas em que intervém interesses secretos e discretos, religiosos e laicos, económicos e financeiros, partidários e corporativos. A Justiça proclama a sua distância aos interesses do dia, às lutas de corpos e de classes, aos grupos e associações, mas organiza sindicatos e similares, ameaça e leva a cabo greves e reivindicações tanto profissionais como políticas. A Justiça exige garantias e condições de investigação e julgamento, defende o recato e protege as suas prerrogativas de trabalho, mas Uma sensação estranha | Opinião | PÚBLICO 27/01/2019, 23*53 https://www.publico.pt/2019/01/27/opiniao/opiniao/sensacao-estranha-1859484 Page 6 of 7 aceita ou estimula o mais fétido clima de fugas de informação e de falhas deliberadas de segredo de justiça. A Justiça invoca um alto espírito de respeito pelo Direito, pela Lei e pelo Processo, no que tem seguramente razão, mas utiliza métodos duvidosos e privilegia as escutas que valida ou elimina com intenções estranhas. A Justiça portuguesa teve dificuldade em adaptar-se à democracia, aos tempos modernos, à Europa, aos Tribunais europeus, ao digital, ao capitalismo e à sociedade de informação. A Justiça tem como missão dirimir conflitos e defender as liberdades e os direitos humanos. E escorar a democracia. Esta, sem justiça, fica entregue aos clãs e às tribos. Sociólogo TÓPICOS JUSTIÇA OPINIÃO MINISTÉRIO PÚBLICO OPERAÇÃO MARQUÊS PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA CONSELHO SUPERIOR DE MAGISTRATURA SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA