domingo, 16 de junho de 2019

JOÃO MIGUEL TAVARES NO DIA DE PORTUGAL

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Leia aqui na íntegra o discurso de João Miguel Tavares:
“Eu vivi e cresci a 100 metros do local onde me encontro, ali mesmo, no
cimo da Avenida Frei Amador Arrais. Foi nessa casa que habitei até fazer
aquilo que a maior parte dos portalegrenses faz após acabar o secundário:
deixar a cidade para ir estudar fora, na universidade. Boa parte dos
portalegrenses, infelizmente, já não volta a viver aqui. Eu não voltei. Mas
aquela será sempre a minha casa. E esta foi, é e será sempre a minha
cidade.
Tenho a honra de ser o primeiro filho da democracia a presidir às
comemorações do 10 de Junho. Não sei o que é viver sem liberdade. Devo
ao Portugal democrático e ao Estado português boa parte daquilo que sou.
Sou filho de dois funcionários públicos. Fiz o ensino básico e secundário
numa escola pública. Licenciei-me numa universidade pública.
Portugal não falhou comigo. Permitiu que um simples estudante de uma
cidade do interior, sem qualquer ligação à capital e às suas elites, fosse
subindo aos poucos na vida e chegasse até aqui.
O meu crescimento acompanhou o crescimento da democracia portuguesa.
Vi o quanto o país mudou.
Até ao final da década de 90, Lisboa estava a mais de quatro horas de
autocarro de Portalegre, e a essa distância física correspondia uma ainda
maior distância cultural. Os livros eram poucos e vendiam-se nas
papelarias; o cinema só funcionava ao fim-de-semana; as bandas que nós
queríamos ouvir não passavam por cá.
Mas o país progredia, e eu via-o progredir. Os meus pais estudaram mais
anos e tiveram mais oportunidades do que os meus avós. Eu estudei mais
anos e tive mais oportunidades do que os meus pais.
Como acontecia em tantas casas, a minha família investia parte do salário a
comprar livros e enciclopédias que chegavam pelo correio, a prestações.
Esses livros representavam o conhecimento e a educação que as famílias
ambicionavam para os seus filhos.
Os pais lutavam por isso – lutavam menos por eles, do que pelas suas
crianças, para que elas tivessem uma vida melhor, estudassem, fossem
“alguém”. Os seus filhos chegariam às universidades. Estudariam

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dezasseis, dezassete, vinte anos, se fosse preciso. Viajariam mais. As suas
férias não estariam limitadas aos 15 dias em Albufeira. Seriam grandes.
Seriam felizes. Seriam europeus.
A geração dos meus pais sacrificou-se para que os filhos tivessem o que
eles nunca tiveram. Mas é possível que eles tenham tido aquilo que mais
nos tem faltado nos últimos vinte anos: um objectivo claro para as suas
vidas e um caminho para trilhar na sociedade portuguesa.
Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia
em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80.
Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90.
Não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia.
É nessa dificuldade que repousam tantas das nossas angústias.
As pessoas de hoje não são diferentes das de ontem: enquanto indivíduos,
continuamos a amar, a sofrer, a chorar, a rir, hoje como sempre. Boa parte
de nós, talvez julgue mesmo que a politica é somente um cenário
longínquo, distante da vida que nos importa, que é aquela que está mais
próxima de nós. Daí o chamado “desinteresse pela politica”.
Mas creio que este sentimento é já uma consequência dos nossos próprios
fracassos. A integração na Europa do euro não correu como queríamos.
Construímos auto-estradas onde não passam carros. Traçámos planos
grandiosos que nunca se cumpriram. Afundámo-nos em dívida. Ficámos a
um passo da bancarrota. Três vezes – três vezes já – tivemos de pedir
auxílio externo em 45 anos de democracia. É demasiado.
Perguntamo-nos como foi isto possível. Criámos comissões de inquérito
para encontrar responsáveis. Descobrimos um país amnésico, cheio de
gente que não sabe de nada, que não viu nada, que não ouviu nada.
Percebemos que a corrupção é um problema real, grave, disseminado, que a
Justiça é lenta a responder-lhe e que a classe politica não se tem
empenhado o suficiente a enfrentá-la.
A corrupção não é apenas um assalto ao dinheiro que é de todos nós – é
colocar cada jovem de Portalegre, de Viseu, de Bragança, mais longe do
seu sonho.

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O sonho de amanhã ser-se mais do que se é hoje vai-se desvanecendo,
porque cada família, cada pai, cada adolescente, convence-se de que o jogo
está viciado. Que não é pelo talento e pelo trabalho que se ascende na vida.
Que o mérito não chega. Que é preciso conhecer as pessoas certas. Que é
preciso ter os amigos certos. Que é preciso nascer na família certa.
Os miúdos que não nasceram nesse tipo de “família certa” têm direito aos
mesmos sonhos que os filhos das elites portuguesas – todos nós
concordamos com isto. Mas será que estamos a fazer alguma coisa para que
aquilo com que concordamos se torne realidade? Será que podemos
garantir que o talento conta mais do que a família em que cada um nasceu?
Será que a igualdade de oportunidades existe?
Quando eu digo à Carolina, ao Tomás, ao Gui ou à Rita – os meus quatro
filhos – “leiam mais, trabalhem mais, que o vosso esforço será
recompensado” – será que lhes estou a dizer a verdade?
Os meus pais disseram-me isso a mim. E eu estou aqui. Mas será que a
mesa está equilibrada e o elevador social funciona hoje da mesma forma?
Ou a vida estará bem mais difícil para um jovem na casa dos vinte anos,
que numa economia de baixo crescimento tem de competir com uma
geração mais velha já licenciada, integrada num mercado de trabalho
rígido, que confere muita protecção a quem tem um lugar no quadro e
muito pouca protecção a quem não o tem?
No nosso país instalou-se esta convicção perigosa: um jovem talentoso que
queira singrar na carreira exclusivamente através do seu mérito, a melhor
solução que tem ao seu alcance é emigrar. Isto é uma tragédia portuguesa.
Não podemos condenar os nossos filhos ao discurso fatalista de um
Portugal que é assim, porque nunca foi de outra maneira.
O desespero não nasce do erro, mas do sentimento de que não vale a pena
esforçarmo-nos para que as coisas sejam de outra forma – porque nunca
serão.
A falta de esperança e a desigualdade de oportunidades podem dar origem
a uma geração de adultos desencantados, incapazes de acreditar num país
meritocrático.

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Esta perda de esperança aparece depois travestida de lucidez, e rapidamente
se transforma numa forma de cinismo. Achamos que temos de ser
pessimistas para sermos lúcidos. Que temos de ser desesperançados para
sermos realistas. Que temos de ser eternamente desconfiados para não
sermos comidos por parvos.
Guardamos os bons sentimentos para as nossas relações pessoais, onde
somos certamente seres encantadores, mas quando se trata de reflectir sobre
o nosso papel enquanto cidadãos, partes de uma nação e de um tecido
social e político comum, colocamos uma mola no nariz e dizemos que
pouco temos a ver com isso, porque os políticos não se recomendam.
Há o “eles” – os políticos, as instituições, as várias autoridades, muitas das
quais (receio bem) se encontram hoje aqui presentes. E há o “nós” – eu, a
minha família, os meus colegas, os meus amigos.
Entre o “nós” e o “eles” há uma distância atlântica, com raríssimas pontes
pelo meio. “Eles” não têm nada a ver connosco. “Nós” não temos nada a
ver com eles.
O senhor Presidente da República costuma dizer com frequência que os
portugueses, quando querem, são os melhores do mundo. O senhor
Presidente da República que me perdoe o atrevimento: não há qualquer
razão para os portugueses serem melhores do que os finlandeses, os
nepaleses ou os quenianos.
Mas tenho uma boa notícia para dar: também não precisamos de ser
melhores.
Para quem ainda acredita numa ideia de comunidade, os portugueses são
aqueles que estão ao nosso lado. E isso conta. E conta muito.
Partilhamos uma língua, um país com uma estabilidade de séculos, sem
divisões, e é uma pena que por vezes pareçamos cansados de nós próprios.
Tivemos História a mais; agora temos História a menos. Passámos da
exaltação heróica e primária do nosso passado, no tempo do Estado Novo,
para acabarmos com receio de usar a palavra “Descobrimentos”.
Simplificamos a História de forma infantil.
No século XVI, Luís de Camões já cantava os seus amores por uma escrava
de pele negra – tão bela e tão negra que até a neve desejava mudar de cor.

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Para desarrumar os estereótipos, talvez precisemos de um pouco menos de
Lusíadas e de um pouco mais de lírica camoniana.
Menos exaltação patriótica e mais paixão por cada ser humano – eis uma
fórmula que me parece adequada aos tempos que vivemos. Sendo já poucos
os que acreditam nas grandes narrativas, continuamos a acreditar nas
pessoas que temos ao nosso lado. E esse é o caminho para a identificação
possível dos portugueses com Portugal.
Sozinhos somos ninguém. A velha pergunta bíblica “acaso sou eu o guarda
do meu irmão?” tem uma única resposta numa sociedade decente: “Sim,
és.” Num país algo desencantado, o grande desafio está em tentar
desenvolver um sentimento de pertença que vá além dos prodígios do
futebol.
Quando o senhor Presidente da República me convidou para presidir a estas
cerimónias houve muita gente que ficou espantada, incluindo eu próprio.
Mas com o tempo fui-me afeiçoando à ideia de que talvez não seja
absolutamente necessário ter méritos extraordinários para estar aqui, e que
Portugal precisa cada vez mais de um 10 de Junho feito de pessoas comuns
e para pessoas comuns.
Um 10 de Junho que aproxime as linhas entre o “nós” e o “eles”. Uma festa
do português anónimo, da arraia-miúda, daquelas pessoas que todos os dias
fazem mais por este país do que elas próprias imaginam.
O 10 de Junho do meu avô, que tinha uma casa de pasto no fundo da rua de
Elvas e oferecia um prato de sopa a quem não tinha dinheiro para pagar
uma refeição.
O 10 de Junho dos meus sogros, que tiveram de fugir de Moçambique em
1975 e reconstruir toda a vida em Portugal com seis filhos para criar,
alguns dos quais ficaram dispersos pela família até eles voltarem a ter
condições para os acolher.
O 10 de Junho das três mulheres que criaram a minha mulher, uma delas
originária de Timor, que viajaram desde o outro lado do mundo para
acolher um bebé nascido em Moçambique e fazê-lo crescer numa pequena
aldeia da Beira Interior.
São histórias de vida impressionantes.

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Portugal não é composto apenas por instituições longínquas, Parlamentos
em Lisboa, políticos distantes de quem dizemos mal no café.
Portugal somos nós. Sou eu. São as pessoas que estão sentadas em lugares
privilegiados nestas bancadas. São os militares que desfilam à nossa frente.
São os portalegrenses debaixo do sol de Junho. São as pessoas lá em casa, a
ouvir estas palavras.
Todos temos nas nossas famílias histórias destas, de gente banal envolvida
em feitos extraordinários.
Temos o hábito de levantar a cabeça à procura de grandes exemplos, e nem
sempre os encontramos – mas muitas vezes os melhores exemplos estão ao
nosso lado, e alguns deles começam em nós mesmos.
Sobre cada um de nós recai a responsabilidade de construir um país do qual
nos possamos orgulhar.
Aos políticos que dirigem Portugal, e representam os seus cidadãos,
compete-lhes contribuir para esse esforço, propondo-nos um caminho
inteligível e justo. Os portugueses podem não ser os melhores do mundo,
mas são com certeza capazes de coisas extraordinárias desde que sintam
que estão a fazê-las por um bem maior.
A política não falha apenas quando conduz o país à bancarrota. A política
falha quando deixa o país sem rumo e permite que se quebre a aliança entre
o indivíduo e o cidadão.
Aquilo que melhor distingue as pessoas não é serem de esquerda ou de
direita, mas a firmeza do seu carácter e a força dos seus princípios. Aquilo
que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos
dêem alguma coisa em que acreditar. Que alimentem um sentimento
comum de pertença. Que ofereçam um objectivo claro à comunidade que
lideram.
Nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa. (Além de pagar
impostos.)
Cada português precisa de sentir que conta, precisa de sentir que os seus
gestos não contribuem apenas para a sua felicidade individual, ou para a
felicidade da sua família, mas que têm um efeito real na sociedade, e
podem, à sua medida, servir o país.

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É preciso dizer ao velho que perdeu tudo nos incêndios de Pedrógão – tu
contas. É preciso dizer ao miúdo que habita na pobreza do Bairro da
Jamaica – tu contas.
É preciso dizer ao cabo-verdiano que trocou a sua terra por Portugal, em
busca de um futuro melhor para os seus filhos – tu contas, e os teus filhos
não estão condenados a passarem o resto das suas vidas a limpar as casas
da classe alta de Lisboa ou do Porto.
É preciso dizer à mãe ou ao pai que se sacrifica diariamente para que o seu
filho possa estudar numa boa escola – tu contas, o teu esforço não será
desperdiçado, e enquanto cidadão português tens os mesmos direitos e a
mesma dignidade que um primeiro-ministro ou um Presidente.
E se alguma pessoa emproada vos perguntar pelo vosso currículo, digam-
lhe que currículo tem tanto o académico que decide dedicar a sua vida ao
estudo como o pai que decide dedicar a sua vida aos filhos.
Currículo tem tanto o cientista que dedica o seu tempo à investigação como
o reformado ou o jovem que dedicam o seu tempo a ajudar os outros.
São diferentes tipos de currículo, mas são currículo.
E se ainda assim vos perguntarem “quem é que tu achas que és?”,
respondam apenas: “Sou um cidadão que todos os dias faz a sua parte para
que possamos viver num Portugal melhor e mais justo.”
Isso chega – aliás, não só chega, como é aquilo que mais falta nos faz.”

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